Forró para todos, Caderno Dois da Tribuna de Minas - 28/06/2009

Confiram a reportagem publicada no Caderno Dois do jornal Tribuna de Minas dia 28/06/2009
Forró para todos
Janaina Nunes
Repórter
Nos meses de junho e julho, os grupos de forró costumam ficar com agendas lotadas de shows em festas e bares pela cidade e região. É a temporada de “arraiás”, que faz com que as pessoas, embaladas pelo clima dos festejos de Santo Antônio, São João e São Pedro - este último comemorado amanhã, dia 29 -, se voltem ao ritmo nordestino. Ao som da zabumba, do triângulo e da sanfona, o tradicional forró pé-de-serra fala de amores, amizades e sofrimentos, retratando a dura realidade dos sertanejos e a saudade da terra natal, sentida por muitos retirantes.
Este estilo tradicional, difundido em todo o Brasil pelo mestre Luiz Gonzaga, conhecido como o Rei do Baião, é também chamado de forró de raiz e vem sendo retomado por uma nova geração de músicos apreciadores dessa cultura. Estes jovens, que, entre 1999 e 2000, viveram o “boom” do forró universitário, tendo como principais expoentes Falamansa e Rastapé, hoje se reúnem em Juiz de Fora em torno do projeto Forró Pra Juventude.
Com apresentações todos os domingos, no Crize Bar, o projeto reúne grupos musicais e de dança. “A intenção é divulgar o forró pé-de-serra e fazer um intercâmbio com trios e grupos de outras cidades que estão nesse movimento de resgate, regravando canções antigas”, conta o produtor Evaldo de Almeida, que é zabumbeiro do Trio Raízes do Nordeste e, desde o início desde ano, juntou-se à dupla Alessandra e Marquinhos, para montar o Trio Caruru, dedicado a intérpretes femininas, como Marinês, Carmélia Alves, Anastácia e Elba Ramalho.
Também adepta do forró universitário, a banda Espirro de Bode se diferencia pelo instrumento de cordas e, para ressaltar essa característica, traz em seu repertório canções de famosos violeiros, como Zé Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo. A banda surgiu em 2001, época em que o mercado estava muito aberto a esse ritmo. Mas o percussionista Daniel Amorim lembra que, a partir de 2003, o forró acabou perdendo espaço na mídia e, para continuar vivendo de música, foi preciso investir em outros projetos, tocando paralelamente em grupos de reggae, MPB e rock. Segundo ele, o número de adeptos vem crescendo, principalmente nessa época do ano.
Tradição nas pickups
Novidade no meio “forrozeiro” da cidade, os DJs Kalango e Cris Vinil também se incluem nessa onda de retorno às raízes do forró e até montaram um site (www.forrojf.com.br) com informações sobre o ritmo e a agenda de festivais pelo Brasil. Com fones de ouvido e pilotando pickups, eles não fazem mixagens e não interferem nas músicas, apenas selecionam o que o público deve ouvir. “É um trabalho de intensa pesquisa e muita paixão”, conta Danilo Santos, o DJ Kalango.
Com um acervo digital de 90 gigabites de música, que corresponde há mais de 25 mil faixas de áudio, Danilo possui 90% de tudo o que Luiz Gonzaga gravou, além de canções de antigos e novos artistas que tocam xaxado, baião, xote, coco, arrasta-pé e músicas típicas juninas. Com seu acervo digital, ele costuma se apresentar ao lado do amigo Cristiano Cardoso, o Cris Vinil, que possui uma coleção de mais de 150 discos de forró pé-de-serra.
Os dois vão participar da I Feira de Tradições Nordestinas, realizada, nos dias 3, 4 e 5 de julho, no estacionamento anexo do Independência Shopping. O evento promete dar uma mostra do que acontece no Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas no Rio de Janeiro, a popular Feira de São Cristovão, do Rio de Janeiro, com exposições de artesanato, literatura de cordel, além de mais de 50 pratos típicos. De acordo com o produtor Carlos Eduardo da Costa Netto, também haverá apresentações de trios, repentistas e performances.
Mistura de gêneros
Enquanto alguns defendem o ritmo de raiz, outros misturam estilos e apresentam uma roupagem “forrozeira” para gêneros diferentes. É o caso do Trio Só Forró, com a tradicional formação de sanfona, zabumba e triângulo, que se tornou conhecido com o projeto Tudo Vira Forró. “A gente toca clássicos da MPB e canções conhecidas de reggae e axé, mas tudo com o ritmo do xote”, explica o zabumbeiro Maurício Martins.
O Só Parênt também mescla forró e reggae, mas a sanfona é substituída pela gaita de Douglas Monte. Eles ainda contam com violão, zabumba, triângulo, bateria e contrabaixo. O repertório vai de Luiz Gonzaga a Bob Marley, passando por Gilberto Gil, Tim Maia e Jorge Ben Jor. Influenciada também pelo movimento mangue beat, a banda apresenta composições próprias. Depois da temporada de festas juninas e julinas, a rapaziada se prepara para gravar o segundo álbum, com 12 faixas.
Origens do forró
Festa popular brasileira de origem nordestina, o forró mistura ritmos como xote, xaxado, baião e marcha de quadrilha e é, geralmente, tocado por trios compostos de sanfona, zabumba e triângulo. A palavra forró, de acordo com o folclorista Câmara Cascudo, deriva do termo africano forrobodó, que em bantu significa arrasta-pé, farra, confusão, desordem. O termo era utilizado para designar um tipo de festa que acabou se tornando gênero musical. No entanto, a etimologia popular frequentemente associa a origem da palavra forró à expressão inglesa “for all” (para todos). A versão que sustenta essa hipótese é a de que, no início do século XX, engenheiros britânicos, instalados em Pernambuco, para construir a ferrovia Great Western, promoviam bailes abertos ao público, que eram chamados de “forró” pelos nordestinos. Além do rei do baião, Luiz Gonzaga, outros nomes ajudam a divulgar o ritmo dentro e fora do Brasil, como Dominguinhos, Trio Nordestino, Genival Lacerda, Alceu Valença, Elba Ramalho, Jackson do Pandeiro, Frank Aguiar, Zé Ramalho e João do Vale.
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